REGRAS PARA SE VISITAR UM TEMPLO BUDISTA

Eu moro num Templo Budista. Só neste templo, há 12 anos. Nesse tempo todo, percebi como as pessoas, mesmo realmente interessadas, acabam cometendo alguns deslizes de boa educação e etiqueta, pertinentes à conduta e costumes orientais, ou seja, o que os “gaijins” e nikkeys fazem de errado ao visitar um Templo. Mas antes de tudo, regras de bom comportamento e bom senso é que predominam.

1) Procure se informar se o Templo em questão é aberto à visitação pública, se sim, quais os horários disponíveis. Se não, quando é possível participar de uma atividade aberta a iniciantes.

1.1) Não fique decepcionado ou irritado se o Templo não for aberto à visitação. Isso é uma questão administrativa e não um ponto turístico. Lembre-se que Sinagogas e Mesquitas também valem-se do direito de manter suas instalações longe do público, apenas “curioso” que só quer “dar uma olhada”. Os Templos, independentemente do credo, não são vitrines de sapatos.

1.2) O Templo, para receber seus fiéis, precisa passar por faxinas periódicas, as flores do altar precisam ser trocadas pelo menos semanalmente. E isso quem realiza é o responsável pelo Templo, o Monge. Portanto ele não se encontra todo o tempo disponível para atender. Além do que ele tem que honrar com suas obrigações mundanas, como ir ao banco pagar suas contas, cuidar da manutenção de seus pertences, como o carro. Cuidar da sua própria saúde e da família, incluindo aqui seus pets. Ou seja, às vezes o Monge não está no Templo.

2) Para resolver a dúvida número 1, procure telefonar ou mandar e-mail ou mensagem. Não apareça “do nada”, ou “porque estava passando quando viu o templo” e resolveu “conhecer” o Templo.

3) Horário de almoço é o mesmo para você e para quem está no Templo. Jantar também. Respeite o horário comercial.

3.1) Se você combinou de visitar o Templo, compareça no horário determinado, nem antes nem depois. Esqueça a ideia de que “meia hora não é considerado atraso”. Caso não consiga honrar o compromisso, regra simples de boa educação: avise.

4) Se você vai visitar um Templo, por estar interessado em Budismo, lembre-se que haverá alguém esperando e que o recepcionará e terá paciência de ouvir e responder seus questionamentos. Mas não abuse, procure ao menos saber o que é o Budismo, quem foi o Buda, a que ramo do Budismo, ou a que Escola pertence o Templo visitado. Não custa pesquisar um pouco na Internet, o Google resolve muito bem nessa hora.

5) Não faça perguntas impertinentes e/ou desnecessárias. Coisa facilmente resolvida se você tiver cumprido a sugestão acima mencionada.

6) Exemplos de perguntas impertinentes e/ou desnecessárias: o que o Budismo acha de Jesus Cristo? ou Deus? ou alma? Espírito Santo? Você está visitando um Templo porque tem interesse em Budismo ou quer estudar religiões comparadas?

7) Não procure nem pergunte onde está aquela imagem do Buda gordinho para você fazer um pedido. Nem todos os Templos, aliás, são poucos, que têm imagens de Hotei. Se não souber quem é Hotei, volte para o item 4.

8) O Templo que você estava querendo visitar, por acaso está aberto e cheio de gente? Nada impede que você entre respeitosamente e assista a cerimônia. Mas muitas vezes, trata-se de uma cerimônia familiar, portanto restrita aos membros e amigos de determinada família que solicitou uma cerimônia específica destinada a um ente querido já falecido. São os chamados Ritos Póstumos. Se quiser mais informações, espere a cerimônia terminar e a família se retirar, e então procure o Monge, Missionário ou Dirigente, ou Sensei ou responsável para pedir informações pertinentes ao item 1.

9) Se o Templo visitado em questão estiver realizando um rito aberto, por exemplo: Ohigan (Equinócios), Hanamatsuri (Nascimento do Buda), Obon (Finados budistas) ou Ação de Graças do Mestre etc. Tratam-se de ritos abertos à comunidade em geral. Vale a dica do item 8.

10) Regras ou dicas em caso de estar no interior de um Templo:

10.1) No Brasil não é comum o uso de tatami (com “i”sim! a grafia em japonês é ta-ta-mi e mesmo os dicionários de português trazem com “e”, mas isso é culpa de professor de arte-marcial mal informado) no interior da nave principal, mas há exceções, no caso dos Templos Zen Budistas, o local de meditação muitas vezes é forrado por tatami (no singular por se tratar de palavra estrangeira). Nesse caso há necessidade de tirar seus sapatos.

10.2) Jamais pise no altar. Nem descalço e muito menos, jamais de sapatos. Muitos Templos não têm uma divisão visível entre o altar e o local destinado ao público fiel. Mas na maioria, o altar fica num nível mais elevado. Por respeito e hierarquia, via de regra somente os monges podem andar no altar. Excetuando-se dias de faxina.

10.3) Sempre haverá uma mesa com castiçal e incensário para os fiéis oferecerem incenso. Você pode acender e vela e acender o incenso em varetas. Cada Escola adota uma maneira diferente de oferecer incenso, em alguns Templos o incenso aceso é espetado em pé no incensário. Outros são oferecidos deitados no incensário. Se já tiver incenso queimando e tiver incenso em pó, faça uma pequena reverência, ofereça duas porções sobre o incenso (isso pode mudar de acordo com o estilo de cada Escola) que já está queimando no incensário. E não se esqueça de juntar as mãos (Gasshô), quem souber, entoa o Nembutsu (Namu Amida Butsu) e no final faça uma leve inclinação do tronco em sinal de respeito.

10.4) Em algum lugar da nave, haverá uma caixa, grande ou pequena escrito em japonês: お賽銭箱(osaisen-bako) ouおさいせん (osaisen) e em muitos casos, estará escrito “donativos”. Nesse caso, esse donativo é destinado à manutenção das pequenas necessidades do altar, como material de limpeza, óleo de lamparinas, fósforos, flores etc.  Portanto você pode doar moedas ou cédulas de valor mais modesto.

10.5) Em caso de você estar numa cerimônia aberta como as citadas no item 9, você perceberá que há uma mesa de recepção logo na entrada do Templo. E perceberá que muitos fiéis entregam ali um envelope. Alguns menos prevenidos, esquecem de trazer de casa, e neste caso pegam na mesa de recepção. Este envelope contêm um donativo para a realização do rito ou cerimônia em questão. Estes donativos são destinados para a Associação Mantenedora do Templo, que custeará as despesas de viagem e Danna (donativo àquele que profere o Ensinamento Budista) do palestrante convidado, se houver. E também supre as despesas da refeição comunitária que ocorre logo após a cerimônia. E neste caso temos que levar em consideração despesas não contabilizadas como água, luz e telefone. Dificilmente há um valor mínimo determinado, quando muito, um valor sugerido. Escreva seu nome no envelope, pois tudo isso será contabilizado no livro de donativos para controle da tesouraria. No Budismo não vale o dito bíblico: “nãosaiba a tua mão esquerda o que faz a tua direita”, por questões meramente contábeis.

10.6) Os envelopes também são comuns em ritos de família, como o citado no item 8. Se você for convidado a participar de uma cerimônia fúnebre, ou em memória de alguém, é delicado oferecer um envelope com donativo à família, para ajudar nas despesas decorrentes, como a confraternização oferecida pela família aos convidados. No caso de ritos fúnebres, o envelope é oferecido em substituição às flores, velas e incenso oferecidos no altar.

Como disse de início, o que vale é o bom senso. Portanto não comentei que não se deve entrar no Templo comendo, bebendo, sem camisa, com animais de estimação (incluindo filhotes mal-educados e incontroláveis de humanos), roupas que atentam ao pudor (não incluindo aqui, camisetas de times que caíram para a segundona! o Templo não faz distinção de times futebolísticos) etc.

Deve haver muito mais questões, mas essas são as mais relevantes por enquanto. Espero que tenha ajudado. Me ajudaria muito se fosse compreendido pelas pessoas que batem o interfone na hora do almoço, por exemplo.

Revª Sayuri Tyojun