Do sonho de Eshin-ni

No famoso conto mongol “A Ruiva Ann”, a heroína, por ocasião de seu longo noivado, disse: “do que um anel de diamantes, quero um anel de pérolas”. O noivo responde contrariado: “mas dizem que as pérolas simbolizam lágrimas”. Ao que Ann respondeu: “há lágrimas de tristeza, mas também há lágrimas de felicidade. Eu pretendo, junto com as alegrias da vida, aceitar também alegremente as suas tristezas”.

Quando Eshin-ni tornando-se esposa de Shinran, acompanhava-o levando consigo o filho de 4 anos de idade (Shinren-bô), e dirigiam-se para a região de Kantô,  nesse instante, no vai e vem de seus pensamentos, muito provavelmente, ela poderia se identificar muito com a personagem Ann.

Mas apesar desta disposição no início da viagem, com toda certeza, com o passar dos dias, ela teve que enfrentar acontecimentos imprevisíveis e passar por tantos sofrimentos que a nocautearam, que a sacudiram, que a deixaram com vontade de se sentar e não levantar nunca mais.

– Não seria melhor retornar para Echigô?

Provavelmente, o coração de Eshin-ni encontrava-se muito confuso.

Nesse estado, certa noite num vilarejo de Sakai chamado Shimotsuma[1], Eshin-ni teve um sonho. Ela sonha com dois Budas. Um dos Budas, que era só brilho, era Seishi Bosatsu[2] com o corpo de Hônen, o outro era Zenshin[3] (Shinran), na forma de Kannon Bosatsu[4].

Na manhã seguinte, conversando com seu marido sobre o sonho que teve do Mestre Hônen como imagem de Seishi Bosatsu, disse-lhe Shinran: “trata-se de um sonho premonitório”. Há uma tradição que afirma ser o Mestre Hônen uma encarnação de Seishi Bosatsu. (Quando o Mestre Shinran, já em idade avançada, compôs o seguinte Wasan ou Hino: “Da Força da Luz da Sabedoria de Amida, nos foi manifestado o Mestre Genku”[5] – será que ele não foi influenciado pela longínqua lembrança deste diálogo que teve com Eshin-ni?).

Assim, Eshin-ni, através do vislumbre que Shinran teve de Hônen, pôde crer em seu marido como uma manifestação de Kannon como resultado da atuação da Força do Voto de Amida. Seja qual fosse o sofrimento, ela decidiu-se por seguir aquele homem.

Na minha opinião, Shinran deve ter sido uma pessoa de difícil trato, de difícil aproximação. Talvez tenha sido um marido que demandava constante atenção por parte de Eshin-ni. Porém, ela tomou a decisão de segui-lo. Ela enxergou a atuação da Grande Compaixão. Às vezes me acontece de poder ouvir a voz de Eshin-ni dizendo: “É tão bom poder enxergar Kannon-sama no meu esposo”. Acabo concluindo que eu realmente gostaria de seguir em frente junto com este casal que se uniu de forma tão extraordinária.

Hiroko Sagae: Bon-mori do Templo Eimyô-ji

Revista Dôbô junho de 2001

Tradução: Sayuri Sakane