O budismo abraça toda forma de amor

São Paulo, 05 de junho de 2015

Esta semana a comunidade lgbt faz mais uma vez validar seu pedido de respeito e compreensão junto à sociedade por meio da famosa Parada gay. O tema deste ano, “eu nasci assim, eu cresci assim” posiciona uma nova maneira de mostrar que a diversidade de identidade sexual é real, legítima e sobretudo humana. E vai de encontro a uma breve reflexão que gostaria de fazer.

O budismo não se preocupa com relação a este assunto, ele não é um dogma moraltoda forma de amor muito menos punitivo aos olhos de um ser superior. Na verdade, tanto faz vc ser gay ou hétero, pois não é a sua condição, ao que se convencionou de moral, que o leva ao nascimento a Terra Pura e ao Nirvana. A propósito, esta ação de ir nascer na Terra Pura no budismo Shin é proporcionada pelo Voto do Buda e não pela pessoa com seu esforço próprio. Não esqueçamos ainda que esse conceito moral é uma criação abrahãmica da sociedade ocidental e vivamente incutida na mente coletiva, mesmo de quem não é praticante religioso.

O desejo sexual assim como outros instintos ou comportamentos estão baseados fundamentalmente nos cinco agregados, os chamados skandhas: forma, sensações, percepções, formações mentais e consciência. Eles são, como tudo no universo, impermanentes, interdependentes e efêmeros. E não são eles o sofrimento em si, mas o apego que damos a eles. Em suma, nos apegarmos a ideia do desejo ou não é que gera o sofrimento, não o fato em si. A compreensão sobre esses cinco agregados nos permite uma visão melhor da própria existência humana. Todas as sexualidades, homo ou hetero levam à inquietude, à insatisfação constante da mente e por consequencia ao sofrimento pela angústia e aflição do eterno desejo insaciável. Logo, o desejo gay é tão doloroso quanto o desejo hétero. E a liberação do sofrimento é o alvo maior dos ensinamentos budistas. Poderiamos ficar horas falando sobre os Cinco agregados. Reproduzo aqui uma passagem interessante.
“No Sutra Girando a Roda, o Buda diz: “Quando nos apegamos aos Cinco Agregados, eles produzem sofrimento”. Ele não disse que os agregados são, por si mesmos, o sofrimento. Há uma imagem no SutraRatnakuta que nos pode ser útil. Um homem joga um bolo de terra para um cachorro. O cachorro olha para o bolo de terra e late furiosamente, porque não entende que é o homem, e não o bolo de terra, o responsável por sua frustração. O sutra continua: “Da mesma maneira, uma pessoa comum, presa a conceitos dualistas, pensa que os Cinco Agregados são a causa de seu sofrimento, enquanto na verdade a raiz do sofrimento está na falta de compreensão da natureza impermanente, sem existência separada, e interdependente dos Cinco Agregados”. Não são os Cinco Agregados que nos fazem sofrer, mas a forma como nos relacionamos com eles. Ao observarmos a natureza impermanente, interdependente e sem existência própria de tudo o que existe, não sentimos aversão pela vida, mas, ao contrário, constatamos como a vida é preciosa” , retirado do site Acesso ao insight, trecho do livro A essencia dos ensinamentos de Buda – Thich Nhat Hahn.

Ainda ressalto que para o budismo não há o conceito de pecado nem culpa julgada por um ser divino, criador, superior ou demiurgo como o conceito de Deus. Logo, para budistas (gays), a vida se torna mais leve em entender e viver sua identidade sexual. O mesmo acontece com espíritas e anglicanos e algumas vertentes que, em paralelo às escrituras tradicionais, procuram interpretar seus ensinamentos de forma mais atual e holistica.

O desejo pelo mesmo sexo não é algo previsível, assim como ser canhoto ou gostar mais de doce ou salgado. Esses conflitos são produto de uma mente discriminativa do próprio ego e de uma cultura imposta como verdade absoluta. Muito menos o sexo é visto como perpetuação da espécie humana para um projeto divino. É preciso ainda lembrar que somos um grande fluxo cármico de várias gerações e variedades, onde a Vida nos é concedida, em meio à causas e condições. Sempre brinco se alguém aqui pediu para nascer, rsrs, acho que não né!

Em nossas formações fisicas e mentais, eu vejo a sexualidade antes de tudo como uma identidade do desejo inato, não de uma influência de criação sócio-familiar, senão não haveriam individuos gays pois seus pais são héteros, nem uma opção pois a vida não é uma autoprogramação, e muito menos escolha pois não há desejo pelo oposto como alternativa, salvo aqui os bissexuais. O desejo homoafetivo assim vem junto ao nascimento, aos que assim vieram, cedo ou tarde desvela seu instinto (o jargão “sair do armário”), mas pela força da sociedade que vivemos temos uma tendência a nos subjulgar pela moral ditada pelos dogmas de culturas religiosas impostas e assim nos sentirmos culpados, confusos e castigados.

Nesse ponto, algo importante a se relevar, a crença e os dogmas de uma deteminada religião só tem validade se você nela crer, caso contrário, nenhum julgamento pode ser intimidador. Os dogmas e crenças são relativos, a verdade budista não é válida para judeus, nem a cristã para os muçulmanos, e nem preciso discorrer mais sobre o ponto visto os séculos de guerras. Portanto, a comunidade lgbt se faz posicionar no conceito de sociedade laica e assim respeitar sua presença junto à ela.

Logo, no budismo, o Buda o abraça em sua Luz e Sabedoria e o recebe em sua Terra Pura do jeito que é, por razões que brevemente discorri sobre os Agregados. Em breve analogia, é o que outras vertentes como anglicanos ou espiritas preconizam, aceitando a comunidade homoafetiva em suas sedes e os compreendendo como filhos de Deus. E apenas para finalizar, as pessoas se preocupam tanto com o ato sexual em si, perpetuação da família (que aliás esse é outro assunto para mais tarde), plano divino, mas esquecem o mais profundo e fundamental, o Amor pelo outro expresso entre si no mais puro e belo afeto. E isso é absolutamente indiscutível, legítimo e relevante diante de qualquer religião.

Rev. Jean Tetsuji